Quando deixou a filha no local da prova, em agosto do ano passado, para prestar o concurso para o Colégio Naval, o taxista Raimundo Rodrigues Martins de Souza se surpreendeu com a quantidade de concorrentes. “No dia da prova, que eu cheguei lá, vi muita gente”, lembra. Apesar disso, não tinha dúvidas de que a menina Julia, então com 16 anos, estaria entre os aprovados. O que ele não imaginava era encontrar o nome dela no topo da lista de mais de 14 mil candidatos, ao lado da maior nota de todo o certame.
Os 91,6 pontos superaram com folga a média da ampla concorrência feminina (76,4) e masculina (69). “Ela ser a número um foi um negócio emocionante. Eu nem acreditei”, admite o pai orgulhoso. O resultado coroou um ano marcado por muito sacrifício para toda a família. Moradora da Praça Seca, na Zona Oeste do Rio de Janeiro (RJ), Julia atravessava a cidade todos os dias para estudar no Colégio Militar, no bairro do Maracanã, um percurso que pode chegar a mais de uma hora, a depender do trânsito. À tarde, frequentava um curso preparatório perto da escola.
Sonho de todos
“Ou seja, eu passava, basicamente, o dia todo fora de casa. Acordava às 5h da manhã, ia para lá e ficava direto. O curso terminava às 6h da tarde. Chegava em casa, pelo menos, umas 19h, 19h30”, conta Julia. Para ajudá-la a conquistar o sonho de estudar no Colégio Naval, os pais também precisaram se dedicar, garantindo a renda extra para a continuidade dos estudos. Enquanto Raimundo não dispensava nenhuma corrida, mesmo as mais distantes, sua esposa, a enfermeira Fernanda, assumia ainda mais plantões.
“A gente teve alguns problemas financeiros nesse caminho, mas meus pais sempre conseguiram reservar dinheiro para pagar o cursinho preparatório. Minha mãe começou a trabalhar demais, fazer muitos plantões, noites e noites trabalhando. Muitas vezes fui dormir sem a minha mãe em casa. Então, com certeza, tanto ela quanto o meu pai se sacrificaram demais por isso e me ajudaram muito”, reconhece a aluna do Colégio Naval, cujas aulas do período de adaptação começaram neste domingo (19), em Angra dos Reis, município ao sul do estado do Rio de Janeiro.

Com apoio da família e muita dedicação, Julia Rodrigues garantiu a maior nota do concurso para o Colégio Naval ‒ Imagem: Arquivo pessoal
Aos poucos, os pais se acostumam com a distância. “É um pouco de tristeza, um pouco de alegria. O sentimento é que parece que você vai perdendo a sua filha para o mundo. Mas os filhos, na verdade, não são feitos para os pais. São feitos para o mundo. Então, essa missão nossa é meio complicada, porque a gente está vendo a filha praticamente indo embora. Mas em um bom sentido. Dali, ela já vai para a Escola Naval e depois, se Deus quiser, lá na frente, já vai ter a sua própria caminhada”, acredita Raimundo.
Próxima parada: Escola Naval
O plano é esse e Julia já mostrou ser capaz de cumpri-lo. A primeira etapa ‒ ser aprovada no concurso ‒ foi concluída com sucesso. “Ela era mesmo determinada. Não é porque é minha filha, não. Era o dia inteiro estudando. Sábado, domingo, ela não ia para lugar nenhum”, conta o pai. Sem nenhum contato anterior com a Marinha, a escolha pelo Colégio Naval foi motivada por ser uma opção viável para seguir a carreira militar, uma vez que a instituição de ensino médio da Força Naval prepara os alunos para, havendo vaga, ingressarem no Curso de Graduação da Escola Naval.
A decisão se mostrou acertada, já que o Colégio Naval alcançou, no final do ano passado, o primeiro lugar no ranking do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), na categoria de Melhor Ensino Médio da rede pública do estado do Rio de Janeiro, e o quarto lugar em âmbito nacional. O indicador, divulgado pelo Ministério da Educação, relaciona as taxas de aprovação escolar, obtidas no Censo Escolar, com as médias de desempenho em língua portuguesa e matemática dos estudantes no Sistema de Avaliação da Educação Básica.
Firme na estratégia, a jovem começou a aprofundar seu conhecimento sobre a história e as tradições marinheiras e acabou conquistada pela carreira naval. “Quando você estuda para a prova do Colégio Naval, é bom saber algumas coisas sobre a Marinha, que são temas de redação. Esse ano, por exemplo, foi sobre a Amazônia Azul. Com o tempo, que eu fui estudando mais sobre a Marinha também, fui me interessando muito. Eu fui gostando bastante sobre essa questão do mar, de trabalhar embarcada. Comecei a ter um sonho de ir para o Corpo da Armada, quem sabe um dia.”
Determinação é o que não falta
Esta não foi a primeira tentativa da estudante, que chegou a prestar o mesmo concurso em 2023. Porém, uma questão da prova escrita objetiva de ciências a impediu de avançar para a próxima fase, apesar do bom desempenho nas demais disciplinas ‒ língua portuguesa, estudos sociais, matemática e inglês ‒ e na redação. “Eu não estava realmente focada. Até porque eu estava no oitavo ano ainda nessa época e eu ia fazer a prova só para testar mesmo, para ver como eu estava”, avalia. Foi no final daquele ano que começou a estudar com mais afinco.
Todo esforço valeu a pena. A boa notícia veio em dezembro de 2024, com a divulgação do resultado final. Julia não apenas garantiu uma das 12 vagas destinadas ao público feminino, uma concorrência de 419 candidatas por vaga, como conquistou a maior nota do concurso, dentre todos os candidatos. “O negócio não é fácil, porque lembra bem: são 12 vagas para as meninas. Mas se você for estudando, com certeza vai progredir na vida”, afirma Raimundo. Determinação para isso é o que não falta nessa família.
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Fonte: Agência Marinha de Notícias
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